Loreta era separada do marido, uma separação traumática que
a fizera jurar que nunca maisgostaria de homem algum, pois eram todos
estúpidos, traiçoeiros e egoístas.
Não saía de casa, anão ser para levar a
filha às festas infantis, frequentadas por poucos homens, sujeitos bonachõese
entediados que pacientemente bebiam cerveja nas mesas enquanto as esposas
tomavam contados filhos.
Mas ela sabia que quando voltassem para casa com suas
mulheres agiriam com amesma brutalidade e falta de consideração do seu marido.
As esposas, para eles, não passavamde empregadas domésticas sem direitos
trabalhistas.Luís frequentava as mesmas festas que Loreta.
Quando a mulher dele
morreu, Luis não feznenhum juramento, mas deixou de se interessar por outras
mulheres e dedicou-se a cuidar dafilha de oito anos, por quem fazia todos os
sacrifícios, entre eles o de levá-la às festinhasinfantis, que ocorriam todos
os sábados, da turma do colégio, das vizinhas, das amigas das vizinhas, das
amigas das amigas do colégio - havia sábados em que a filha era convidada
para mais de uma festa.
O juramento de Loreta já durava um ano, quando um dia
notou a presença de Luís numa dessas comemorações infantis.
E, contra a própria
vontade, sentiu-se atraida por ele. Mas Luís nem ao menos notava a presença de
Loreta, embora se encontrassem frequentemente.
As filhas eram da mesma idade e
cursavam a mesma escola.
Loreta percebia, não obstante o desvelo que demonstrava
pela filha, que Luis não gostavadas festas infantis, o que era compreensível,
pareciam infindáveis em suas seis horas de duraçãomédia, os alto falantes tocavam somente músicas barulhentas, os animadores eram pessoasincansáveis que
inventavam brincadeiras e sopravam apitos estridentes, as luzes
muitobrilhantes, as crianças gritavam, as mães falavam muito alto, era normal
que Luís ficasse semânimo para levantar da cadeira, onde se quedava paciente e
ensimesmado, logo ao chegar
Apesar de Loreta fazer tudo para chamar a atençao
de Luís - as mães também entravam nasbrincadeiras, muitas até com mais
entusiasmo do que as crianças -, ele não tomavaconhecimento da existência dela.
Certa ocasião, fingindo que dançava e cantava uma músicacomo refrão
bum-chibum-tchibum-bumbum, ou coisa parecida, Loreta jogou-se em cima deLuis,
que ouviu as desculpas de Loreta sem nem sequer olhar para ela.
A atraçào de
Loreta por aquele homem calado e distante aumentava semanalmente.
Arranjava
maneiras de sentar em mesas próximas à dele, pelo menos nisso a sorte sempre
afavorecia.
Mas apesar de estar ali perto, Luís não notava que ela existia.
Um
dia, Loretaderramou Coca-Gola sobre ele e começou a limpá-lo com o lenço que
tirou da bolsa, e Luísapenas disse, pode deixar, não se preocupe, mal olhando
para ela.
Loreta fez outras tentativas,tropeçou na cadeira em que Luís estava sentado,
perguntou-lhe quem é que canta essa música,está calor, não?, e outras
indagações bobas, mas ele continuou alheio absorto em seuspensamentos, apenas
esboçando um sorriso melancólico.
Loreta, depois de um longo tempo, concluiu que
todos os seus esforços eram em vão; e ela,que gostava tanto de dançar, passou a
ficar sentada, chateada, comendo compulsivamente osdocinhos e salgadinhos
servidos nas festinhas.
Uma amiga perguntou, o que está havendo comvocê? Não
era uma das melhores amigas de Loreta, era apenas uma conhecida, as
filhas estudavam no mesmo colégio, mas aquela pergunta caiu do céu, Loreta
precisava aliviar o pesodo seu coração. Estou apaixonada.
Que coisa boa, até que enfim, disse a amiga, que se chamava
Paula.
Mas ele não está interessado em mim.Isso é duro, querida, é a pior coisa
do mundo.
Eu sei por experiência própria.
Lembra aquele rapaz que estava comigo
na festa do sábado passado?
Loreta não lembrava, ela não via nenhum outro homem
â sua frente a não ser Luis.
O nome dele é Fred, ele também não gosta de festa de
criança, nenhum homem gosta,homem gosta de futebol e televisão, lembra do meu
ex? Nunca foi a uma festa da própria filha. Mas Fred já me acompanhou várias
vezes, e a filha nem é dele. Quando o conheci, ele não davabola para mim, mas
eu disse, esse é o homem da minha vida, pode ser mais moço, tem dez anosmenos,
mas vai ser meu. E consegui. Quer saber como? Se você quiser contar.Você não vai
acreditar.
Vou.
Uma santa salvou a minha vida. Você vai achar que é uma
feiticeira, mas é uma santa. Fui consultá- la e ela não jogou búzios, nem olhou
nenhuma bola de cristal, nem cartas, nem nada.Você sabe que eu adoro essas
madames que lêem mão e fazem previsões, tem uma na rua dapadaria, a madame
Zuleyma, já fui lá, mas não valeu a pena. Mas essa, a mãe Izaltina, não se chama
de madame-isso-ouaquilo, é só mãe Izaltina, e ela, depois de ouvir o que eu
tinha a dizersobre o homem por quem estava apaixonada, puxou a pálpebra
inferior do meu olho para baixo,como os médicos fazem para ver se a gente está
anêmica, perguntou novamente como era onome do Fred e me pediu que trouxesse um
pouco da cera do ouvido dele. Se eu conseguisseisso, ela me assegurou, o homem
ficaria ainda mais apaixonado por mim do que eu por ele.Cera do ouvido? Que
coisa mais maluca. Como é que você conseguiu a cera do ouvido?Esse foi o
problema. Fiquei atarantada, sem saber o que fazer. Um dia, eu o vi num
bartomando chope. Sentei numa mesa ao lado, indecisa. Estava me achando
ridícula, me sentindocoroa e gordinha e resolvi pagar a minha conta e ir
embora. Quando abri a bolsa, vi nocompartimento interno uma caixa de cotonetes.
Nunca andei com caixa de cotonetes na bolsa,não sei como ela apareceu ali. Era
uma coincidência muito estranha. Tirei um cotonete, mesentei na mesa dele e
perguntei, posso tirar um pouco de cera do seu ouvido?
Que coisa horrível, você
fez isso?
Eu estava desesperada.
O que foi que ele disse?
Ele olhou para mim,
surpreso, mas logo riu, e respondeu, virando a orelha para mim, sirva-se, meu
nome é Fred. Mas ele tem um dragão tatuado num braço e no outro um coração
onde está escrito amor de mãe, esses caras com tatuagem de dragão e de amor de
mãe são imprevisíveis, eu soube depois. Tirei a cera do ouvido dele com o
cotonete, com muito cuidadopara não machucá-lo, agradeci e fui embora correndo.
Dei o cotonete para a santa. Ela mandouque eu esperasse uma semana.Depois de
uma semana, encontrei Fred na rua fingindo um encontro casual. Ele mesegurou
pelo braço com força e disse, vamos tomar um chope. Nesse mesmo dia fizemos
amor ea paixão dele é cada vez mais forte. Alucinante.Cera de ouvido?Quer o
endereço dela? É na rua do Riachuelo, no centro da cidade.
Paula deu o endereço
para Loreta, advertindo que a santa falava de um jeito esquisito.
Na
segunda-feira Loreta foi ao endereço da rua do Riachuelo. Nunca havia ido
para aqueles lados da cidade, só conhecia a Barra da Tijuca, onde morava, e um
pouco do Leblon e
de Ipanema. Achou as ruas feias, as pessoas malvestidas,
ficou um pouco assustada, mas mesmoassim curiosa. Depois de algum tempo,
descobriu algum encanto naqueles sobrados velhosostentando, nas fachadas, datas
e figuras em alto-relevo.Subiu as escadas de madeira do sobrado da mulher a
quem Paula chamava de santa. Bateuna porta, e foi recebida por uma figura que
não lhe pareceu exatamente uma mulher, que não eragorda nem magra, ou melhor,
tinha o rosto muito magro e o corpo volumoso, ou talvez apenas oseu peito fosse
grande, pois os braços eram finos e normalmente quem tem braço fino tem
pernafina. Seus olhos eram fundos, rodeados por olheiras roxas, as faces
encovadas.Mãe Izaltina?Entra, misifia, disse a mulher, Loreta já tinha sido
advertida por Paula que a mulher falava esquisito.Era uma sala cheia de móveis
velhos, poltronas com estofos esfarrapados, cortinas escurase pesadas nas
janelas, uma gaiola com um passarinho, uma televisão antiga.Senta, misifia,
disse mãe Izaltina, seu coração está batendo muito forte. Loreta sentou-se.
Sentiu que o seu coração estava mesmo sobressaltado.
Foi a Paula quem me falou
da senhora.Unhum, resmungou a velha, como é o nome da misifia?O quê?Seu nome,
misifia. Loreta.Unhum. E o do homem? Luis. Unhum.O rosto de mãe Izaltina deixou Loreta
nervosa. Desviou seu olhar para a gaiola com opassarinho.Não é passarinho de
verdade, misifia, mas ele canta, quer ver?Mãe Izaltina levantou-se acionou um
mecanismo ao lado da gaiola e imediatamente opassarinho começou a cantar.
Depois, enquanto o passarinho cantava, mãe Izaltina aproximou-se e colocou as
duas mãos abertas sobre a cabeça de Loreta, que apesar de assustada
ficouimóvel.Me deixa ver, me deixa ver, disse mãe Izaltina apertando as mãos,
desarrumando oscabelos de Loreta, unhum.Depois de resmungar mais um pouco, mãe
Izaltina passou a mão no rosto, no pescoço, nosbraços, nas pernas e no peito de
Loreta, que pensou que desmaiaria.A pele, misifia, ganha do cabelo, a pele
ganha do olho, a pele ganha dos dentes, a peleganha de todas as coisas que brilham
ou que não brilham, que aparecem ou que se escondem nocorpo. Existe dente
postiço, cabelo postiço, olho postiço, tudo isso você compra na loja, menosa
pele.Essas palavras Loreta entendeu, mas mãe Izaltina aos poucos começou a
falar com a línguaenrolada coisas incompreensíveis, com exceção do misifia,
repetido várias vezes, que Loretatambém não sabia o que significava.É isso ai,
misifia, disse mãe Izaltina encerrando sua falação.Desculpe, mãe Izaltina, isso
o quê, não entendi direito.Misifia, você tem que fazer xixi na perna do homem,
em cima do joelho.Não entendi, repetiu Loreta, confusa.Você tem que fazer xixi
na perna do homem, em cima do joelho.
Por um longo momento Loreta ficou calada, sem saber o que
dizer, fingindo que olhava para a gaiola do passarinho.
Não dá para ser cera de
ouvido?, perguntou, afinal.
Misifia, cera de ouvido é para outro tipo de homem.
O seu é diferente. Senti o homem quando passei a mão na sua cabeça e no seu
peito, que são os lugares onde ele se alojou.
E agora?
O que é, é. Agora, misifia
quer ir embora, seu corpo está envolto em fumaça, estou vendo,é uma fumaça cor
de carambola, é assim mesmo. Quer tomar um copo de água?
Quanto é que eu lhe
devo?, perguntou Loreta, abrindo a bolsa.A gente depois conversa, misifia,
quando tudo der certo.Loreta desceu as escadas, saiu e andou pelas ruas como
uma sonâmbula. Afinal encontrou um táxi.
Sou uma idiota, pensou, quando viu o mar
da janela do táxi.Chegando em casa, procurou o telefone de Paula, mas não o
tinha anotado. Ligou para ocolégio das meninas, onde conseguiu o número.Paula,
aquela velha é maluca. Teu caso deve ter sido uma coincidência.Não é maluca
não, é uma santa. Tem outros casos. Conhece a Lucinha? Ela também
queria enlouquecer um homem e procurou a santa. Hoje o cara vive nos pés da
Lucinha, de joelhos. A Lucinha é casada!O que tem isso? Vai dizer que quando era
casada você não pulou a cerca, pelo menos uma vez? Nunca.Pra cima de mim? Eu
pulei, e não foi uma vez só. Olha, essa história da Lucinha fica entrenós, se o
marido dela sabe do caso mata os dois, dizem que já matou um, quando moravam
em Mato Grosso. Não fala com ninguém, promete.Vou falar para quem?Sei lá. Eu não
falei para você?Já disse para não se preocupar. Quer que eu jure?Calma. O que
foi que a santa mandou você fazer? Cera de ouvido? Com a Lucinha foi umameleca,
você acredita? Um pedacinho de meleca. Imagina o que a Lucinha sofreu, para
arranjarum pedacinho de meleca do nariz do homem. Eu tive sorte com a cera de
ouvido.Apesar de o xixi ser menos ridículo e até menos nojento do que a meleca,
Loreta não teve coragem de dizer para Paula que a santa tinha mandado ela urinar
no joelho de Luís, como forma de encantamento. E além de tudo, Paula era uma
boquirrota, ia depois contar para todomundo. Loreta já estava arrependida de
ter usado Paula como confidente.Não, ela não me mandou fazer nada. Disse que
vai pensar e depois me diz.Vai pensar? A santa resolveu o meu problema em cinco
minutos. O seu deve ser complicado. Você é uma mulher complicada, não sei se ele
também é, mas você é uma mulher complicada. Deve ser isso.Ela não cobrou nada. A
santa só cobra depois que tudo dá certo. Mas aí mete a mão. Não sei o que faz
do dinheiro, a casa dela está caindo aos pedaços.
A entrevista de Loreta e mãe
Izaltina aconteceu numa segunda-feira. No sábado haveria umaniversário de criança
no salão de festas de um dos prédios do condomínio, e certamente
Luís compareceria com a sua filha
Meu Deus, disse Loreta, na manhã de sábado, se olhando no
espelho, duas noites sem dormir, olha como o meu rosto está horrível, mais um
pouco eu ia ficar com a cara daquelabruxa. Aquela bruxa era mãe Izaltina, a
santa de Paula, que lhe dera uma tarefa impossível deser cumprida. Como é que
poderia fazer xixi na perna de Luís? Tirar a cera do ouvido é uma coisa, mas
como chegar perto de um homem qualquer homem, por mais tatuado que ele fosse,
eperguntar, posso fazer xixi no seu joelho? Na tarde daquele sábado, Loreta
chegou arrasada na festinha infantil. Colocara toda amaquiagem possível de ser
usada num fim de tarde sem ficar parecendo uma das muitas peruasque estariam
presentes e usava o seu vestido mais provocante, um que mostrava o contorno
dassuas cadeiras e do seu bumbum, que milagrosamente permanecera pequeno e
firme. Mas Luís não olhou para ela, nem sequer uma vez. Como fazer aquela coisa
horrível que mãe Izaltina tinha mandado? Impossível. Loreta teve vontade de
morrer e ficou a festa inteira se enchendo dedocinhos, salgadinhos e
refrigerantes.Quando a mulher de Luís morreu, ele deixou de se interessar pelas
outras mulheres, até conhecer Loreta numa festa infantil. Ele odiava festas
infantis, as músicas, os enfeites dossalões, os animadores, as crianças, as
mães das crianças, os salgadinhos e docinhos, tudo. Mas asua filha sempre fazia
uma choradeira danada e ele dizia, está bem, vou te levar mais uma vez,mas é a
última, não vou mais ceder à sua chantagem, pode chorar até derreter que não
adianta.Claro que acabava cedendo, e levava a filha para as festinhas, sentava
numa mesa praguejando com os seus botões, cambada de filhos da puta, e isso
englobava mães, animadores,garçons, babás e crianças, excluída a filha dele.
Até que viu Loreta, e apaixonou-se por ela, algoque julgava impossível de
acontecer, depois que sua mulher morreu. Luis não era um homem dado a leituras,
a não ser daqueles livros de pensamentos emáximas, muitas das quais ele
conhecia de cor, por conterem verdades eternas. Uma delas erade Miguel de
Cervantes um velho escritor espanhol: a inclinação natural da mulher é
desdenhar quem a quer, mas amar quem a despreza. Assim, aquela mulher não
poderia saber que ele estavaapaixonado por ela. Como conquistála? O certo é que
não poderia correr o risco de Loretadescobrir o amor que sentia, isso botaria
tudo a perder, como o mestre espanhol alertava do altode sua sabedoria.Depois
de ter encontrado Loreta, o comportamento de Luís mudou. Já na quinta-feira,
àsvezes ate mesmo na quarta, ele perguntava para a filha, vai ter festa no
sábado?, quer um vestidonovo? Chegando na festa procurava sentar numa mesa
próxima da mulher por quem seapaixonara, o que era fácil, pois o destino
parecia colocá-los sempre em mesas contíguas. Mantinha-se indiferente,
reservado, repetindo mentalmente o aforismo do espanhol, com um arapático, que
ensaiava na frente do espelho, não obstante seu coração batesse desenfreado
otempo todo. Loreta, esse era o nome dela, também parecia não notar a presença
dele, uma ocasião pisara no seu pé, em outra derramara um copo de Coca-Cola na
roupa dele, era umamulher de aspecto sonhador, havia alguma coisa de sublime
nela, mesmo quando dançava asmúsicas da moda que eram vulgares. Mas ele notara
que, ultimamente, Loreta permaneciasentada, empanturrando-se de doces e
salgados. Tinha vontade de lhe dizer para não comer aquelas porcarias, que o
corpo dela era muito bonito, que ela ia engordar, ficar bunduda, como a maioria
das mães naquelas festinhas, e como dizia Samuel Johnson, quem não presta
atenção à sua barriga não presta atenção a mais nada. Ou seja, é preciso saber
comer, comer não é umacoisa para se fazer distraidamente, como as pessoas fazem
ao comer salgadinhos, docinhos edemais porcarias, comer tem que dar prazer e
não apenas fazer a barriga crescer, a bunda crescer, os peitos crescerem, e a
mulher que não vê isso não vê mais nada, não vê que a sua vida
foi destruída. Mas isso era uma conclusão dele, o Samuel
Johnson não chegara a tanto, mas amaneira certa de entender uma máxima era
desenvolvê-la conforme o bom senso e a experiênciade cada um.Luís não
conversava com ninguém nas festas infantis; planejava o recurso engenhoso
queiria utilizar para estabelecer um contato promissor com Loreta. Como dizia o
mencionado espanhol, amor e guerra são a mesma coisa, estratagemas e diplomacia
são permitidos tanto emum como no outro. Mas qual seria o estratagema? Um dia,
um sujeito cabeludo pediu licença e sentou-se na mesa de Luís.Você não tem
vontade de esganar essas criancinhas todas?, o cabeludo perguntou.A minha filha
está entre elas.Está bem, tiramos sua filha da lista, eu não sei quem é, mas
deve ser uma boa menina.Porém as outras diabinhas nojentas, diga a verdade, não
dá vontade de esganar? Luís entrou no jogo do maluco.Não seria melhor colocá-las
numa jaula? Elas iam continuar gritando do mesmo jeito.Isso é verdade.
Enjauladas e amordaçadas, que tal? Já melhorou. Meu nome é Fred.Luís, muito
prazer.Tenho visto você sempre macambúzio, sentado sozinho numa mesa, sem olhar
para asmulheres, Isto aqui é um viveiro, cara, está cheio de mulher dando sopa,
não pode marcarbobeira. Qual é o problema? Está apaixonado e a mulher não te dá
bola? Só vejo mulheres que não me interessam, disse Luís. Quer dizer - ele
curvou-se e sussurroupara Fred -, esta lourinha aqui do lado até que eu acho
interessante.Fred olhou de soslaio. Sei quem ela é, o nome é Loreta.
Companheiro, essa mulher é uma sebosa, fria, frígida como diziam antigamente.
Àsvezes, até desconfio que é uma espécie de sapatão. Escolhe outra.Mas eu não
quero nada com ela, disse Luís. Só perguntei por perguntar.Na festa seguinte,
Luís se encontrou novamente com Fred. Ele estava na mesma mesa deLoreta com
outra mulher. Houve um momento em que as duas se ausentaram e Fred foi falar com
Luís. A mulher por quem você está gamado freqüenta esta roda aqui? Não, ela, ela
é de São Paulo.Tem umas paulistas legais, cara, E a paulista não te dá bola? É,
não me dá bola.
Você viu o mulherão que estava na mesa comigo? Não estou falando
da lourinha sapatão.Ela não parece sapatão.Mas é no mínimo frígida. Mas a
outra, você viu? Você viu? Pitéu de quinhentos talheres,cara. Pois eu estava
enrabichado e ela não me dava bola e aí mexi os meus pauzinhos. Depois que usei
o macete, na primeira vez em que nos encontramos, ela praticamente me arrastou
para a cama. Mas tive que mexer os meus pauzinhos. Mexer que pauzinhos? Fui numa
mulher, uma feiticeira, que faz as pessoas se apaixonarem. Fui lá, contei o
meu drama, nem contei tudo, a feiticeira é uma águia. Fiz o que ela mandou, e
sabe o que era? Não.A bruxa disse que eu devia fazer a mulher tirar cera do meu
ouvido, eu respondi, como éque posso conseguir essa façanha que me parece
impossível, e a velha feiticeira respondeu
nada, você não tem que fazer nada. E foi o que eu fiz, nada.
Não se esqueça que Paula nem queria saber de mim. Um dia eu estava quieto no bar
ela chegou e tirou cera do meu ouvido comum cotonete e saiu correndo. Quando
nos encontramos novamente, fomos direto para a cama.Paula está tresloucada de
amor por mim. Quer o endereço da bruxa? Fica na rua do Riachuelo,no centro. O
nome dela é mãe Izaltina. Mas vou avisando, ela fala esquisito, muitas coisas
agente nem entende. E apresenta a conta só depois de fazer o milagre.Luís foi
procurar mãe Izaltina, na rua do Riachuelo. Ele conhecia bem aquela
vizinhança.Antes de morar na Barra, residira ali perto, no Bairro de Fátima,
mas depois foi melhorando devida e do Bairro de Fátima passou para a Tijuca, da
Tijuca para Botafogo, e de Botafogo para a Barra.Mãe Izaltina abriu a
porta.Entra, misifio. Senta ali.Ele sentou-se, constrangido, sem poder encarar
a bruxa. Era uma mulher magra e cheia de pelancas e seus olhinhos fundos
pareciam de um bicho que ele vira na televisão.Quem foi que falou de mim,
misifio?Um amigo meu chamado Fred. Unhum. E como é o seu nome,
misifio?Luís.Unhum. E o da moça? Loreta. Unhum, unhum, disse Izaltina, olhando,
pensativa, para uma gaiola de passarinho, queparecia doente. Ficou algum tempo
calada.Mostra a língua, disse afinal mãe Izaltina.A língua?É.Essa coisa que
misifio tem na boca.Luís pôs timidamente a língua pra fora.Mais, mais, não deu
pra ver tudo, misifio.Luís abriu a boca e exibiu, o mais que pôde, a
língua. Mais que isso não dá, disse, sem fôlego. Misifio, o seu problema é
sério.Eu sei, ela nem nota que existo.Misifio, a mulher vai ter que fazer uma
coisa com você.Não entendi.Ela vai ter que fazer uma coisa com você.Uma coisa
comigo?
Xixi na sua perna, em cima do joelho.
O quê?
Misifio ouviu muito bem o que
eu disse.
Fazer xixi na minha perna?
Bota a língua pra fora de novo, misifio.
A
bruxa encostou os dedos na língua de Luís, rapidamente, um após o outro, como
seestivesse tocando piano ou sujando os dedos de tinta para tirar impressões
digitais. Ele sentiuvontade de vomitar. Tá confirmado, misifio, a moça tem que
fazer xixi no seu joelho.Que absurdo, como é que eu vou conseguir uma loucura
dessas?
Pede, vai lá, fala com ela e pede, misifio. É uma mulher
fina, recatada e idônea, não posso pedir uma coisa dessas a ela.O que é, é,
disse mãe Izaltina. Luís queria sair dali o mais rápido possível. Tirou a
carteira do bolso. Depois a gente conversa, misifio, disse mãe Izaltina,
afastando, com um gesto, a carteira.Na rua, Luis entrou no primeiro bar que
encontrou. O sujeito tinha que ser um idiota supersticioso para acreditar nas
baboseiras daquela velha demente. Ele se orgulhava de ser um cético, e
superstição, como dizia um filósofo cujo nome não lhe vinha à mente,
superstição é a religião dos débeis mentais. Ele se comportara como um bestalhão
imbecil, indo consultar aquela vigarista. Safada e louca varrida! Mandá-lo
chegar perto de uma mulher fina, decente, epedir, a senhora podia fazer o favor
de urinar no meu joelho? No ano seguinte, Luís mudou a filha de colégio e deixou
de ir às festinhas infantis, não queria correr o risco de encontrar Loreta,
precisava esquecê-la. Mas passou o resto de sua vida pensando nela, triste e
melancólico.Loreta continuou indo, as mães têm que levar as filhas nesses
lugares. Não conseguia esquecer Luís, a quem sempre esperava encontrar
novamente. As festinhas se tornavam mais barulhentas, mais cheias de enfeites,
de luzes, de comidas, bebidas, animadores histéricos, alto-falantes
ensurdecedores, crianças inquietas, homens falsos e mulheres vulgares. Pelo
menos osdoces e salgadinhos estavam cada vez mais gostosos.